Por que aquela foto parecia me pedir algum tipo de explicação? E por que de repente eu me senti como se o tivesse roubado de alguma forma? Faltava-lhe brilho nos olhos e eu me senti responsável por isso. Mas por quê? Eu sempre fui um defensor da vida, dos direitos da pessoa humana. Mas parece que me tornei vítima dessa pós-modernisse onipresente em que nada tem valor absoluto, em que tudo é relativo.
Ao comparar o meu discurso de “defesa” da vida ao nojo que me causa a indiferença da classe média em relação aos problemas sociais, me vi afundando no mesmo barco. "Páre o mundo que eu quero descer". Quantos discursos vazios! O discurso vazio do meio ambiente, da liberdade de expressão, da proteção dos direitos da mulher. O discurso vazio da anti-homofobia, que implanta no país um fascismo moral às avessas. Estamos mergulhados nessa cosmovisão pós-moderna que corrói como um ácido tudo o que pensávamos ser absoluto. Como o valor da vida por exemplo.
O meu discurso de defesa da vida nunca passou de um discurso e apenas isso. Quando vi aquela criança no jornal, pensei logo: Essa criança deve ser de algum lugar remoto da África, como é que posso fazer alguma coisa por ela?Acho que estava me faltando coragem de continuar lendo a matéria relativa à fotografia, eu queria que esse problema ficasse bem longe de mim, mas à medida que lia tanto mais esse fardo caia sobre minhas costas. A verdade é que essa criança não era de uma aldeia qualquer do continente africano, essa criança era aqui do Nordeste do Brasil, bem pertinho de mim.
Na correria do dia-a-dia parece que fechei os olhos, não percebi que também era responsável por pessoas estarem em situações parecidas com a daquela criança, seja por fazer parte e corroborar essa lógica capitalista que exige essa segregação de classes sociais ou simplesmente por omissão. O fato é: Eu poderia fazer alguma coisa sim! Eu poderia fazer a diferença não apenas como jornalista, mas como disse Gandhi, Jesus e muitos outros, eu posso ser essa diferença que espero para o mundo.