11 de outubro de 2010

O pequeno mundo de Daiênni




Ilustração -  Yuri Garfunkel (www.sopagrafix.com) - Texto: José Rezende Jr.

 
Ela tem nome estrangeiro, ainda que abrasileirado. Mas é brasileiríssima. Ou, como prefere: "uma brasileirinha". O diminutivo se aplica: Daiênni tem 23 anos e é pequenininha. A casa, então, é menor do que pequena: um único cômodo em que mal cabem a cama, o berço e a televisão, onde mora com o marido e dois filhos pequenos, Ádrian e Rodrigo. Pela casinha, que fica na periferia de Porto Alegre, circulam ainda cinco gatos miudinhos: Pirulito, Chumbinho, Mimi, Loli e Dudu. Mas que ninguém se engane com tantas pequenas coisas: Daiênni é uma brasileirona. Daquelas que crescem com a adversidade e não se deixam abater só porque um vírus metido a besta resolveu entrar na sua vida sem bater na porta.
Daiênni ignora quando e como contraiu o vírus. Soube que era soropositiva somente no último dia da gestação de Ádrian, que hoje tem quase dois anos. Primeiro, não quis acreditar. Depois, chorou, berrou, brigou consigo mesma. Por fim, rezou para que o filho nascesse sem o vírus. E Ádrian nasceu sem o vírus. Alívio, mas por pouco tempo: poucas horas depois do parto, uma enfermeira avisou que seu bebê precisava ir para a UTI. O mundo caiu pela segunda vez, mas também por pouco tempo. Foi engano: o recém-nascido em estado grave era outro; a dor seria de outra mãe.
Ádrian é uma criança saudável e brincalhona. Só não corre mais de lá pra cá porque na casa quase não há espaço entre o lá e o cá. Rodrigo, o irmão caçula, que veio um ano e meio depois, também vende saúde. Nem tanto pela sorte ou a graça da intervenção divina: é que na gravidez do mais novo, ao contrário da primeira, Daiênni tomou todos os cuidados preventivos. Assim, o vírus que ela e o marido carregam no corpo é menos assustador, porque pelo menos poupou os filhos.
Daiênni e o marido nunca se perguntaram quem contaminou quem. Até porque a discussão não levaria a nada, e quando se tem tão pouco é preciso economizar conflitos. Se ela não pode amamentar os filhos, sob o risco de acabar por contaminá-los, tenta não sofrer por causa disso. "O que não tem remédio, remediado está" parece ser sua filosofia de vida. A mesma regra vale para a precisão de viver longe dos filhos mais velhos, do primeiro casamento. Katlyn, 6 anos, e Dérike, 4, moram com a avó. Quando lhe perguntam se não sente falta dos dois, Daiênni responde em silêncio, apenas percorrendo com o olhar o único cômodo da casa. O que seus olhos querem dizer é que não falta amor, falta é espaço.
Para Daiênni, o vírus trouxe um efeito colateral inesperado: a reapro¬ximação com o pai, a quem só havia visto duas vezes, aos 7 e aos 13 anos de idade. Tão logo soube que a filha tinha aids, o pai a procurou e ofereceu ajuda. Não pode ajudar muito, é verdade, tem poucos recursos até para si próprio, mas o que vale é a intenção. E não há tempo nem espaço para ressentimentos, ainda que quando Daiênni era bebê o pai tenha tentado vendê-la a um casal estrangeiro. Tivesse a negociação sido bem sucedida, Daiênni não se chamaria Daiênni e viveria em outro país uma outra vida, talvez com direito a um quarto três ou quatro vezes maior que sua casa inteira – mas não teria o marido e os filhos que ama acima de qualquer conforto.
Daiênni gosta de escrever poesia, mas, por não saber inventar os pró¬prios versos, copia os que lhe parecem escritos para ela, sob encomenda, por algum poeta que ela encontra nos livros, quando encontra algum livro. Gosta também de sorrir, e sorri, e muito. Mas se existe uma coisa que a tira do sério – ou melhor, que tira dela o prazer de sorrir – esta coisa é o preconceito, que às vezes vem de onde menos se espera, às vezes da irmã que não deixa os filhos brincarem com os primos Ádrian e Rodrigo, mesmo sabendo que nenhum dos dois tem o vírus.
Por medo do preconceito, Daiênni, que trabalha como diarista, mantém o estado de saúde em segredo. O marido, servente de pedreiro com a carteira assinada há pouco tempo, também não conta para ninguém. Nem tanto pelo risco de serem olhados com desconfiança, mas por questão bem mais concreta: eles talvez perderiam seus empregos, e talvez não tivessem nem esta casa pequena para morar.
Daiênni não sonha grande. Deseja, acima de tudo, a família unida, os filhos saudáveis, o vírus para sempre adormecido. E, se possível, uma casa maior. Possível é: ela e o marido já até compraram os tijolos. Vão, de pouco em pouco, esticar as paredes e alargar as fronteiras do seu pequeno mundo. Para que Ádrian e Rodrigo corram livres, e a casa não seja mais tão pequena para abrigar tão grandes brasileirinhos.
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Xu-xu-xu, Xa-xa-xa, é o um jeito novo de criticar!


Uma pequena demonstração do conservadorismo da extrema direita. Supondo que uma mulher não pode ter sua filha, apenas pelo fato dessa mulher não estar casada, o então ministro da saúde, José Serra, fez uma declaração patética que, na verdade, é contra as mulheres.

No seu discurso cheio de farsa ele tentava nublar a história do Brasil, já que certamente bem sabe: as mães solteiras foram (e são) as grandes responsáveis pela criação e educação de parte substancial dos filhos deste nosso país.

Muitos e muitos homens preferem, certamente, fugir assim que se deparam com uma gravidez que, com toda certeza, ajudaram a produzir. Deixam tudo sobre os ombros da mulher e saem de fininho, como se não tivessem nada com o caso.

Isso é traço histórico: há um enorme número de mães solteiras desde sempre. Mulheres que não abrem mão de sua nobre maternidade. Dignas e bravas. Abandonadas pelo parceiro num momento crucial e difícil de suas vidas, seguem firmes.

Prova disso é a lei recente que obriga homens irresponsáveis e malandrões à pagarem pensão, sob pena de cadeia. Até pouquíssimo tempo, porém, eles não pagavam, não assumiam, não respondiam, continuavam engravidando quantas eles pudessem e ponto.

Está aí a base das idéias conservadoras e autoritárias contra a mulher. Não há montagens nem distorções no vídeo que segue: pra essa corrente de "pensamento" as mulheres devem se curvar aos mandos de quem sabe das coisas: ELES.

No caso da apresentadora Xuxa era uma mulher de sucesso e independência que, mesmo assim, enfrentou a fúria machista por desejar ser mãe mesmo sendo solteira.

Xuxa dá uma resposta digna e indignada:



Goste ou não da apresentadora, ninguém poderá negar o supremo direito de uma mulher ter filho. Ok, direito ela teve, já que o bebê veio. Mas é preciso ter também RESPEITO pela decisão das mulheres.

Ou...

1) Será que mulheres solteiras não podem "fazer amor", já que há sempre a possibilidade de gravidez, mesmo com os cuidados mais intensos?
2) Será que elas estariam proibidas de optarem por um ou mais filhos sem a supervisão do universo masculino dominante?
3)Ou será que Serra preferiria que, no caso da gravidez fora do casamento, as mulheres abortassem discreta e higienicamente?

Pense nesse tipo de autoritarismo. Ele está em voga na campanha eleitoral de 2010.
Está disfarçado, mas está aí! 
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8 de outubro de 2010

As linhas tortas do livro de Jó

Texto: José Rezende Jr.




20 de julho de 1989: Edeny está sentada na sala de casa, em São Mateus (Espírito Santo). Vê televisão como quem não vê, distraída, quando a notícia de última hora interrompe a programação: Lauro Corona acaba de falecer, vítima da aids. Mas, no lugar do ator, Edeny vê o rosto do irmão Edson, a quem carregou no colo como se fosse filho. Mas Edinho não tem aids. Ou tem? Será essa a explicação para as repetidas crises de pneumonia? Evangélica, Edeny interpreta a visão como um sinal do céu. E levaria os dois anos seguintes preparando-se para a notícia que afinal chegou com o telefonema de uma médica, amiga da família: Edinho tem aids. O céu estava certo.
Edinho tinha tudo para ser a quarta tragédia de uma família que nunca perdeu a fé, apesar de tantas vezes testada – como Jó, o paciente e fiel patriarca bíblico. Manoel e Dorvalita botaram nove filhos no mundo. José morreu com sete dias de vida, vítima justamente do mal de sete dias. Eulina, com pouco mais de um ano, por causa do sarampo. Erni teve, aos 3 anos de idade, a morte mais trágica. O pai guardava em casa gasolina, para o motor, e querosene, para a lamparina. Uma noite, cansado, trocou os combustíveis. A lamparina explodiu e Erni morreu queimada. Manoel arrastou a culpa até o leito de morte, mas nunca esmoreceu, como bom patriarca. E quando decidiu fazer da casa um hotelzinho simples, mandou pintar na fachada: Pensão Alegria.
Com a morte de Erni, o casal resolveu dar um tempo na procriação. Foram nove anos, até que se iniciasse a segunda leva de filhos. Edeny foi a caçula, até que chegou Edinho, o único a precisar de auxílio médico para nascer. A parteira não dava conta, e coube a Edeny, então com 6 anos, a tarefa de convocar o Dr. Péricles. Depois, montou plantão na porta fechada do quarto, ouvido colado à porta, olhos grudados no buraco da fechadura, até que os adultos descobrissem o logro e lhe impedissem a visão.
Edson era lindo, o bebê mais bonito que Edeny jamais vira em seis anos de vida. Nasceu com o cabelo tão grande que a mãe foi obrigada a cortar, para descobrir-lhe os olhos. Virou o bonequinho de Edeny, a quem cabia cuidar das roupinhas do caçula. E foi justamente a roupinha, enrolada em várias camadas, que amorteceu a queda e evitou o pior quando Edeny rolou escada abaixo com o recém-nascido no colo.
Os dois cresceram mais que irmãos: amigos. E foi por isso que Edeny chorou tanto ao receber o sinal do céu, em forma de notícia urgente na tevê. E foi por isso que dois anos depois, até o diagnóstico, e pelas duas décadas seguintes, passaria a viver como se tivesse uma espada sobre a cabeça.
Os médicos foram implacáveis: Edson tinha poucos meses de vida. Edeny e os familiares renovaram a fé, nas orações e nos medicamentos. Estavam mais uma vez sendo testados. Duplamente testados: além de tudo, o filho-irmão revelara-se homossexual; era portanto, à luz da doutrina, um pecador. Mas a religião que aponta o dedo para o pecador é a mesma que ensina a amar o pecador. Edinho decidiu deixar a igreja, mas foi amado como nunca. Contrariou os vereditos dos médicos e viveu meses, anos, duas décadas. Está vivo e bem. Sofreu com os efeitos colaterais dos medicamentos que lhe adoeceram o baço e o fígado e lhe roubaram o sono. Negou o tratamento por três vezes, mas voltou, graças sobretudo à persistência de Edeny. Quase morreu muitas vezes, a última quando surgiram os sarcomas. A salvação estava nos medicamentos importados dos Estados Unidos e Europa: US$ 2.500 por mês. A família recorreu à Justiça, mas a doença caminhava mais rápido que o processo. Edeny propôs venderem a casa, para custear o tratamento. Edinho não aceitou: “Se fizermos isso, deixaremos de ajudar aqueles que não podem pagar, e que dependem da minha vitória para abrir caminho”.
Os medicamentos chegaram a tempo, e Edinho abriu o caminho para os que não podiam pagar. Tornou-se voluntário: visita soropositivos de casa em casa. Conversa, transmite confiança, faz orações, ajuda a aplicar medicamentos injetáveis. Edeny muitas vezes o acompanha nessa jornada.
Edinho vive hoje com o companheiro. A igreja o recebeu de volta; em troca, ele e o homem que ama vivem em celibato. Por outro lado, o pastor que antes se referia à aids como “castigo” para os pecadores, hoje prefere termo mais brando: “consequência”.
Mas se a vida e o sofrimento ensinam, o que Edeny aprendeu nestas duas décadas sob o fio da espada? Sobretudo a aceitar diferenças e amar os diferentes. Hoje, quase não julga – e quando o faz é para refletir, entender, absolver. Ela sabe que o preço foi muito alto, e a pior parcela paga pelo irmão querido, mas afirma que todos cresceram na adversidade. Tornaram-se pessoas melhores.
Moral da história: depois de anos e anos frequentando a igreja e lendo a Bíblia, Edeny finalmente aprendeu a amar o próximo. E quem ensinou o verdadeiro sentido das palavras de Cristo foi um homem que amava outros homens, e que por isso foi chamado de pecador.
Como se Deus, de fato, escrevesse certo por linhas e mãos tortas.
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Jornais protestam contra Lei antirracismo na Bolívia

non-stop com O Globo

A maioria dos jornais bolivianos saiu nesta quinta-feira sem notícias na primeira página e apenas com breves declarações sobre a liberdade de expressão. A medida foi um protesto contra uma lei que será votada pelo Senado e, se aprovada, determinará o fechamento de meios de comunicação que divulguem mensagens racistas.

O protesto não teve efeito imediato entre os que propuseram a nova lei, incluindo a maioria de parlamentares governistas e o presidente Evo Morales, de origem indígena.

Em entrevista coletiva, Morales declarou nesta quinta que "chegou a hora de acabar com o racismo" e renovou as garantias à liberdade de expressão.

Proprietários de jornais e parte das organizações de jornalistas do país optaram pelo protesto quando a bancada governista no Senado anunciou que não previa suavizar as sanções aos veículos "racistas" contidas no projeto de lei aprovado previamente pela Câmara de Deputados.

Os únicos textos nas primeiras páginas dos jornais "La Prensa" e "El Diario" eram os dizeres "não existe democracia sem liberdade de expressão".

Já o "Página Siete" publicou uma breve justificativa de sua rejeição à lei antirracista.

É claro que uma lei como estas abre enormes "brechas" para a censura e , é claro, para sanções de cunho meramente político.

A verdade é que esses empresários da comunicação não estão preocupados com a liberdade de expressão propriamente ditas, eles estão morrendo de medo é de ganhar menos dinheiro.

Se a lei pretende unica e exclusivamente- o que eu acho muito difícil- inibir publicações racistas nas páginas dos jornais, tem é que ser votada mesmo. Melhor que fechar os jornais seria aplicar multas, acompanhadas de retratações com prejuízos financeiros que tornassem inviáveis qualquer publicação racista.

Contudo a liberdade de expressão não significa poder dizer/publicar, onde quer que seja tudo o que quiser,significa dizer tudo, porém sem desrespeitar ou oprimir minorias.
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