Ilustração - Yuri Garfunkel (www.sopagrafix.com) - Texto: José Rezende Jr.
Ela tem nome estrangeiro, ainda que abrasileirado. Mas é brasileiríssima. Ou, como prefere: "uma brasileirinha". O diminutivo se aplica: Daiênni tem 23 anos e é pequenininha. A casa, então, é menor do que pequena: um único cômodo em que mal cabem a cama, o berço e a televisão, onde mora com o marido e dois filhos pequenos, Ádrian e Rodrigo. Pela casinha, que fica na periferia de Porto Alegre, circulam ainda cinco gatos miudinhos: Pirulito, Chumbinho, Mimi, Loli e Dudu. Mas que ninguém se engane com tantas pequenas coisas: Daiênni é uma brasileirona. Daquelas que crescem com a adversidade e não se deixam abater só porque um vírus metido a besta resolveu entrar na sua vida sem bater na porta.
Daiênni ignora quando e como contraiu o vírus. Soube que era soropositiva somente no último dia da gestação de Ádrian, que hoje tem quase dois anos. Primeiro, não quis acreditar. Depois, chorou, berrou, brigou consigo mesma. Por fim, rezou para que o filho nascesse sem o vírus. E Ádrian nasceu sem o vírus. Alívio, mas por pouco tempo: poucas horas depois do parto, uma enfermeira avisou que seu bebê precisava ir para a UTI. O mundo caiu pela segunda vez, mas também por pouco tempo. Foi engano: o recém-nascido em estado grave era outro; a dor seria de outra mãe.
Ádrian é uma criança saudável e brincalhona. Só não corre mais de lá pra cá porque na casa quase não há espaço entre o lá e o cá. Rodrigo, o irmão caçula, que veio um ano e meio depois, também vende saúde. Nem tanto pela sorte ou a graça da intervenção divina: é que na gravidez do mais novo, ao contrário da primeira, Daiênni tomou todos os cuidados preventivos. Assim, o vírus que ela e o marido carregam no corpo é menos assustador, porque pelo menos poupou os filhos.
Daiênni e o marido nunca se perguntaram quem contaminou quem. Até porque a discussão não levaria a nada, e quando se tem tão pouco é preciso economizar conflitos. Se ela não pode amamentar os filhos, sob o risco de acabar por contaminá-los, tenta não sofrer por causa disso. "O que não tem remédio, remediado está" parece ser sua filosofia de vida. A mesma regra vale para a precisão de viver longe dos filhos mais velhos, do primeiro casamento. Katlyn, 6 anos, e Dérike, 4, moram com a avó. Quando lhe perguntam se não sente falta dos dois, Daiênni responde em silêncio, apenas percorrendo com o olhar o único cômodo da casa. O que seus olhos querem dizer é que não falta amor, falta é espaço.
Para Daiênni, o vírus trouxe um efeito colateral inesperado: a reapro¬ximação com o pai, a quem só havia visto duas vezes, aos 7 e aos 13 anos de idade. Tão logo soube que a filha tinha aids, o pai a procurou e ofereceu ajuda. Não pode ajudar muito, é verdade, tem poucos recursos até para si próprio, mas o que vale é a intenção. E não há tempo nem espaço para ressentimentos, ainda que quando Daiênni era bebê o pai tenha tentado vendê-la a um casal estrangeiro. Tivesse a negociação sido bem sucedida, Daiênni não se chamaria Daiênni e viveria em outro país uma outra vida, talvez com direito a um quarto três ou quatro vezes maior que sua casa inteira – mas não teria o marido e os filhos que ama acima de qualquer conforto.
Daiênni gosta de escrever poesia, mas, por não saber inventar os pró¬prios versos, copia os que lhe parecem escritos para ela, sob encomenda, por algum poeta que ela encontra nos livros, quando encontra algum livro. Gosta também de sorrir, e sorri, e muito. Mas se existe uma coisa que a tira do sério – ou melhor, que tira dela o prazer de sorrir – esta coisa é o preconceito, que às vezes vem de onde menos se espera, às vezes da irmã que não deixa os filhos brincarem com os primos Ádrian e Rodrigo, mesmo sabendo que nenhum dos dois tem o vírus.
Por medo do preconceito, Daiênni, que trabalha como diarista, mantém o estado de saúde em segredo. O marido, servente de pedreiro com a carteira assinada há pouco tempo, também não conta para ninguém. Nem tanto pelo risco de serem olhados com desconfiança, mas por questão bem mais concreta: eles talvez perderiam seus empregos, e talvez não tivessem nem esta casa pequena para morar.
Daiênni não sonha grande. Deseja, acima de tudo, a família unida, os filhos saudáveis, o vírus para sempre adormecido. E, se possível, uma casa maior. Possível é: ela e o marido já até compraram os tijolos. Vão, de pouco em pouco, esticar as paredes e alargar as fronteiras do seu pequeno mundo. Para que Ádrian e Rodrigo corram livres, e a casa não seja mais tão pequena para abrigar tão grandes brasileirinhos.

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