25 de janeiro de 2009

A Casa

Aquela floresta era, para ele, como uma casa, cheia de árvores daquelas enormes mesmo. Lá em cima, bem no alto, nas copas das árvores mais altas, é que ele se sentia melhor. Ele brincava, encontrava o que comer, pulava pra lá e prá cá, fazia festa com seus irmãos, aliás, a vida era como uma grande festa, muito mais, FELICIDADE, a vida era boa, engraçada, divertida, em fim, era a vida que qualquer um pediria a Deus.


Não tinha
preocupação alguma, a não ser com a hora do seu cochilo à tardinha, escolhia um galho bem forte numa árvore dessas que dão muita sobra e, tudo certo, fazia dela seu teto, não tinha nada que fosse capaz de atrapalhar seu sono e ninguém podia entender como era possível alguém dormir assim, dormia como uma pedra, era praticamente como entrar em coma profundo, a árvore tinha um leve balançar e dormir nela, era como se alguém o ninasse. Não acordava antes da hora do jantar.


Sua mãe nunca o deixou escapar de suas vistas, ele não entendia, mas ela sempre repetia:
__ Meu filho, é porque, lá em baixo é perigoso, na parte baixa, longe de casa, não posso te proteger.
Curioso que só ele, tinha que saber o que havia de tão diferente lá, longe do olhar de sua mãe, no chão. Desceu, galho por galho, pronto. Ninguém podia vê-lo agora, nem mesmo sua mãe.


Tudo era diferente, barulhento, homens pra lá e pra cá, árvores cortadas e empilhadas no chão. Fumaça. Viu que havia uma fogueirinha se esvaindo, quase apagando com homens ao redor, comendo, bebendo e dando risadas. Tudo era tão estranho, começou a ficar assustado, deu dois passos pra trás, tropeçou num homem que tentava dormir na varanda de uma cabana, em uma rede, se virou com rapidez, se livrou de um pedaço de pau jogado por um dos homens que estava à beira da fogueirinha. Ufa!


Lá de cima, já a salvo em um dos galhos, ainda com o coração acelerado, começou a entender porque sua mãe o protegia tanto, na verdade viu que era melhor ficar em casa, nas copas das árvores, que não tinha parede alguma, mas dava uma segurança tremenda.


De manhã, ninguém sabia de seu pequeno passeio, e nem podia, senão sua mãe ficaria furiosa. Levantou pra fazer pipi. Banheiro?Não, era somente o final de um galho, ia tudo direto lá pra baixo, porque penico não tinha ali.


Mas sua curiosidade era tremenda, não aguentou, desceu, resolveu dá outra volta na terra dos homens, dessa vez foi mais longe, saiu do território do acampamento dos lenhadores e chegou à única rua que pode conhecer, na verdade era o inicio, uma pequena parte de uma feira. Desconfiado, deu pequenos passos inseguros, passava por baixo das barraquinhas, muita fruta, boca cheia d'água. Lembrou da comida que sua mãe fazia, não era tão apetitosa como a que ele viu ali na feira, mas era feita com muito esmero e
carinho. Tudo parecia mágico, tudo tão grande, tão apetitoso, bem mais agradável do que o que havia lá no alto das árvores. Ele ficou tão maravilhado com tudo que via e escutava. Os aromas o deixavam quase que flutuando.


Sempre que conseguia despistar sua mãe ia para lá, ficava todo o dia na rua da feira, só lembrava-se dos Bobos na hora de descer de sua árvore, já que só retornava no final do dia, horário em que eles já não estavam mais ali. Certo dia ao descer da árvore como era de costume, investigou com o olhar o acampamento dos lenhadores e notou algo diferente, não conseguiu distinguir ao certo, mas tudo parecia tão mais barulhento e intenso, não viu mais os instrumentos que sempre via. Nada de machados ou serrotes, mas as árvores continuavam caindo. Deu de ombros e partiu para a rua da feira, dessa vez foi muito mais longe que ia normalmente, tentou identificar a partir de onde era caminho desconhecido, para assim poder voltar sem mais dificuldades, notou que na lateral de uma barraquinha que vendia bananas estava escrito duas vezes o numero três e uma vês o número zero, assim seguiu.


Pois bem, conheceu tudo que havia para conhecer, visitou todos os cantinhos da feira, gostou muito, já não se assustava mais. Enquanto isso na floresta, sua família passava por maus bocados: pânico, correria, gritos e choro. Não sabia ele que no lugar dos machados e serrotes, colocaram nas mãos dos lenhadores motosserras que cortavam muito mais árvores em muito menos tempo. As duas horas que ele chegou além do que costumava chegar foi o bastante para que todas as árvores do local que ele chamava de casa fossem destruídas. Toda sua família foi morta ou levada para andar em bicicletas em circos na região. Como o arrependimento machucava seu coração.


__Por que não dei ouvidos a minha mãe, por que não fiquei aqui para proteger minha família?
Num momento tinha tudo, noutro nada. As ilusões da vida longe de sua casa foram cruéis, a vida dos homens parecia melhor, mas esses mesmos homens se mostraram maus, terminou que destruíram toda sua família, casa e por fim, sua vida.

A casa
Vinicius de Moraes /
Bardotti / Sérgio Endrigo/ Silvio Melo

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1 comentários:

Catalina Melo disse...

O texto é bastante criativo e nos conduz a reflexão de que está acontecendo com o planeta.
Parabéns
Catalina

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